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As notícias, convites e informações do que ocorre no âmbito da nossa Associação, da Faculdade, do XI de Agosto e demais entidades franciscanas são aqui encontradas, assim como as comunicações dos Antigos Alunos e suas turmas.
  • 08/09/2009 10:57
  • O Traiçoeiro Argumento do Fogo
  • O Traiçoeiro Argumento de Fogo
    Por Elias Farah, Turma 1956.

  • O TRAIÇOEIRO ARGUMENTO DO FOGO
    Neste 11 de agosto das Arcadas ve­nerandas, cheias de estremecimentos cívi­cos a alimentar os ideais de liberdade e do Direito, vem-nos à lembrança o in­cêndio em 1880 na Faculdade de Direito do Largo São Francisco.
    São Paulo, modesta e tranquila, foi, certo dia, despertada às 3 horas da ma­drugada pelo alarma do bimbalhar a re­bate dos sinos de todas as igrejas: um pavoroso incêndio ardia na Faculdade de Direito e se alastrava pelo altar-mor da Igreja São Francisco. A população estremunhada veio à rua. Muitos, ao la­do dos bombeiros, ajudaram, aflitiva­mente, como puderam, durante mais de três horas, a debelar o rumoroso incên­dio. As labaredas refulgiam na escuridão silhuetas macabras, que prenunciavam que a Faculdade e a igreja seriam devas­tadas na voracidade das chamas.
    Às 6 horas da manhã, presentes o presidente da Província, chefe da Policia, delegados e enorme multidão, começou a se extinguir "um dos mais pavorosos incêndios, de que há memória nesta Ca­pital", como noticiou “A Província de São Paulo”, na edição do dia seguinte.
    Na igreja, o altar-mor desapareceu, precipitando-se ao chão o vigamento su­perior da capela. Na Faculdade, a sala-arquivo, onde estavam depositados li­vros, papéis, documentos de notável va­lor histórico, foi devorada pelo fogo.
    "A intensidade do fogo — a falta de pessoal amestrado em serviços de extin­ção de incêndios— a ausência completa de instrumentos necessários em tais ca­sos, como bombas, baldes, machados etc. A deficiência de água, nas primei­ras horas da catástrofe, era terrível prenúncio de que não se salvaria nem o edifício da Faculdade, nem sua bibliote­ca, nem a Igreja da Ordem Terceira dos Franciscanos, edifícios esses todos contí­guos, e inteiramente ligados entre si" (A Província de São Paulo, de 17 de feverei­ro de 1880).
    Extintos o fogo e a fumaça, restou, porém, no ar, terrível indagação: como explicar o incêndio — caso fortuito ou proposital?
    As duas primeiras pessoas que che­garam ao local, um português, marce­neiro, e o sr. José de Macedo, penetra­ram, por uma escada de mão, na Secre­taria e depararam com acentuado cheiro de querosene; e sobre a mesa viram cin­zas do papel queimado e uma bengala tosca desconhecida. Tudo indicava que o fogo ali alimentado extinguira-se sem se alastrar. Nas duas mesas — do secretá­rio e do guarda — os livros tinham os seus panos de coberta embebidos em querosene e tostados.
    Ocorre que a sala contígua — do ar­quivo —já estava tomada pelas chamas. Não havia explicação para a duplicidade de locais na origem do fogo. Pega­das de homem calçado — indo e vindo — foram constatadas em janela dos fundos, em lugar nunca antes usado para trânsito ou passagem. Não havia dúvida: o incêndio fora criminoso, tan­tas eram as evidências e circunstâncias denunciadoras. Corria o boato de que dois estudantes, desgostosos com as no­tas, um pertencente a conceituada famí­lia paulista e outro filho de ilustre titular e político da monarquia, teriam sido os autores.
    Em 21 de agosto de 1880, a Facul­dade estava reconstruída e tudo em or­dem, graças á diligência do padre Vicen­te Pires Mota, então diretor da Faculda­de. Falcão Filho, um dos integrantes da comissão nomeada para expor o acon­tecimento do incêndio e indicar os meios de restaurar o arquivo e a história da Faculdade, abriu subscrição para a re­construção da Igreja São Francisco. O rico altar ainda hoje existente veio, as­sim, da Alemanha, com o produto da subscrição.
    E o desastre daquela madrugada trágica, de 16 de fevereiro de 1880, talvez a mais lamentável de toda a história da Faculdade de Direito, tem o seu autor envolto em mistério, ou tudo, como ain­da acontece, ficou por isso mesmo... e virou um causo!
    Elias Farah