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Crônica de Um Passado Recente
O Colega Marcio Araújo Opromolla (Turma 1999), também conhecido como o “Bauru”, oferece interessante visão do Itamarati, recinto dos Antigos e Atuais Alunos das Arcadas, em que realizamos, mensalmente, o nosso já tradicional Happy – Hour. Agradecidos pela prestimosa colaboração, transcrevemos a integra desse interessante e oportuno artigo:
Quase casa
O Itamarati é um bar que fica ao lado da Faculdade. Parece ser muito antigo, pelo menos é o que os posters da Kibon colados nas paredes nos dizem (“sorvex é kibon”). Desde que entrei na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, muito me falaram desse bar e logo fui compelido a conhecê-lo. O lugar não é dos mais bonitos, é verdade, mas exala uma fragrância de aconchego que, somado ao cheiro de fritura, faz com que nos sintamos em casa, num daqueles sábados à tarde sem nenhuma preocupação na cabeça.
Mesinhas cobertas por um pano bege horroroso, cadeiras acolchoadas estilo anos cinqüenta, pé direito muito alto, um grande balcão com coxinhas e empadinhas expostas e sempre o mesmo velhinho carrancudo atrás de uma velhíssima máquina registradora. Na entrada, um senhor vestido com uma espécie de farda dá boas-vindas aos fregueses. Ao lado, uma barraquinha que vende cigarros e frutas. Tudo contribui para dar ao lugar seu indefectível ar nostálgico.
Os garçons são um capítulo à parte: Dionísio, China, Sonho, Miranda e tantos outros. O Miranda nos é mais caro, pelo menos à nossa turma, pois foi sempre ele quem nos atendeu, sempre com um sorriso no rosto e sempre nos chamando pelo nome. Já o mais pitoresco é Dionísio[1], um velhinho que ainda serve as mesas (ele é ainda mais velho que a máquina registradora), mas sem aquele vigor juvenil que tinha quando à mesa sentavam estudantes hoje sessentões. Para mim, o Dionísio chegou a servir Fagundes Varella, mas o resto do pessoal acha que eu estou exagerando.
Sempre às sextas-feiras (e algumas quintas, quartas, terças e eventualmente uma ou outra segunda-feira), era certo o encontro dos amigos em alguma mesa do Itamarati, para tomar chopp e apreciar os fantásticos bolinhos de bacalhau. O chopp servido está longe de ser o melhor da cidade, mas com certeza o bolinho de bacalhau é o melhor do mundo! Ah, aqueles bolinhos... Para falar a verdade, ninguém sabe quanto de bacalhau tem naqueles bolinhos mas e daí? O que importa é que eles são deliciosos, sejam eles do que for.
Mestres, doutores, juristas, advogados, juízes e promotores são freqüentadores assíduos do nosso querido barzinho, o que faz com que o Itamarati seja, com certeza, o mais jurídico bar de São Paulo. Cá comigo, acho que seria mais fácil achar um juiz para despachar lá do que no próprio Fórum João Mendes Jr.
Muita história foi contada naquele bar e muitas coisas engraçadas aconteceram nas noites em que, ao invés de estudar, aproveitávamos a vida e a juventude para jogar conversa fora e beber em boa companhia. Comemoramos a aprovação na Magistratura, Ministério Público e até OAB, de muitos amigos. Choramos muitas mágoas e fomos muito felizes em suas mesas.
Hoje não vamos com a mesma freqüência de outrora, mas sempre que podemos paramos para uma "sessão nostalgia". E enquanto a vida continua, o Itamarati continua sempre lá, disposto a nos receber de portas abertas, como um querido amigo que não nos vê há muito tempo, mas que como compartilhou a vida conosco, parece que nunca se afastou da gente.
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[1] Infelizmente o Dionísio foi obrigado a aposentar-se e hoje em dia não mais serve mesas. Agora ele fica em casa repousando e esperando o descanso derradeiro (N. A.).