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A Bucha
Cumprindo nota contida no Folha Dobrada nº 12, reproduzimos o inteiro teor do interessante artigo sobre a BUCHA, parte importante de nossa cultura e tradições, como bem retrata o Antigo Aluno Sidney Gioielli, Turma 1954, em seu bem cuidado livro "Os Filhos Joviais de São Francisco".
A BUCHA, por Sidney Gioielli
A BUCHA
O mais eloqüente gesto de solidariedade de Júlio Frank, no entanto, consistiu na criação da Bucha.
As Burschenschaften, a uma das quais pertencera Frank antes de sua vinda para o Brasil, vicejavam na Alemanha. Eram sociedades de jovens - esse o seu significado em alemão - nascidas nas universidades daquele país, da ânsia de combater-se o absolutismo.
Não lhes faltava alta dose de filantropia, com a qual eram amparados de forma discreta estudantes menos favorecidos.
Se a idéia de criar uma sociedade secreta nesses moldes era acalentada de há muito por seu fundador, a verdade é que ela somente se converteria em realidade a partir de 1831.
Nas "repúblicas" então existentes na cidade, os estudantes reuniam-se à noite para discutir seus problemas. Dentre estes, compreensivelmente, despontavam os de ordem financeira.
Esse aspecto parece ter gerado o impulso inicial da formação da Burschenschaft paulista que, por um óbvio comodismo prosódico, passou a ser chamada simplesmente Bucha.
Além da solidariedade e das idéias liberais que a Bucha abrigava, seduziam os estudantes seu caráter secreto e seu ritual, herdado esquematicamente da maçonaria, então em plena projeção no Brasil e na Europa.
A Bucha era formada por alunos escolhidos entre os que mais se distinguiam por seus méritos morais e intelectuais, não se apresentando eles à sociedade secreta, mas sendo por ela selecionados. Somavam, talvez, dez por cento do corpo discente e eram chefiados por um "Chaveiro". Um "Conselho de Apóstolos" orientava a Bucha dentro da Faculdade, enquanto o "Conselho de Invisíveis", composto de ex-alunos, numa espécie de prolongamento da vida acadêmica, a aconselhava e protegia fora das Arcadas.
Suas reuniões secretas obedeciam a uma liturgia bem à feição das sociedades medievais de cavaleiros, com os bucheiros envergando vestes talares e faixas cruzadas sobre o peito, durante as sessões.
Nas faixas usadas segundo o grau de cada um, aplicava-se uma cruz azul representando a fé, ou uma âncora verde significando a esperança, ou ainda um coração vermelho, indicando a caridade.
O interesse pela Bucha ultrapassou as lindes da Faculdade de Direito de São Paulo, propagando-se para a de Recife, onde se fundou a Tugendbund e, mais tarde, para a Escola Politécnica de São Paulo, onde se criou a Landmanschaft (1895). A da faculdade de Medicina de São Paulo, Jungendschaft, é mais recente, datando de 1913.
A Bucha desbordou de seu propósito inicial de mera sociedade filantrópica de jovens liberais, convertendo-se, aos poucos, numa confraria que nem sempre soube distinguir entre o bem comum e os interesses de grupo. A distribuição de privilégios, na Faculdade e fora dela, não estava certamente nas cogitações de seu fundador.
Por isso, é pouco provável que Júlio Frank tivesse proferido a frase que lhe atribuiu Afonso Schmidt, especialmente no tocante à sua última parte: "Os estudantes que continuarem na Escola se auxiliarão mutuamente; os que se formarem terão uma associação de ex-alunos e, mais tarde, poderão até governar o país."
Não é verossímil que o mestre alemão pudesse prever o desdobramento admirável de sua idéia original, nem que se dispusesse a segredá-la - como quer Schmidt - a Arouche Rendon, que não foi sequer um dos iniciados daquela Ordem.
O mais razoável é que Júlio Frank entrevisse a projeção da sociedade que organizara, limitando-se, porém, aos seus futuros efeitos menores, despreocupado em "governar o país".
De qualquer forma, a Bucha viria contribuir decisivamente para a eleição de sete presidentes da República, abrigando em seu seio nomes como Rui Barbosa, Barão de Rio Branco, Afonso Pena, Prudente de Morais, Campos Sales, Rodrigues Alves, Venceslau Brás, Pedro Lessa, Bemardino de Campos, Washington Luiz, Altino Arantes, Júlio de Mesquita Filho, José Carlos de Macedo Soares, César Vergueiro, Spencer Vampré, Waldemar Ferreira, Rafael Sampaio e outras tantas figuras de realce na vida de São Paulo e da Nação.
O krausismo - expressão derivada do nome de Karl Krause, reputado estudioso das sociedades secretas alemãs - dominaria a cena política brasileira por muitos anos; e a reunião das diversas "buchas" paulistas haveria de influenciar diretamente nossos costumes políticos, no curso de toda a Primeira República.
A decadência da Bucha acompanhou passo a passo a perda de substância da República Velha. A fundação da Liga Nacionalista e, subseqüentemente, do Partido Democrático, por dissidentes da Bucha, veio acelerar o processo de deterioração desta.
A Revolução de 1930, que mereceu o apoio desses dissidentes, hostilizou ferozmente a Bucha, com os mais exaltados tentando até mesmo profanar o túmulo de Júlio Frank, como se o jovem professor alemão fosse responsável pelo desvio de propósitos que sua Ordem sofrera com os anos.
A Bucha, depois de todos esses percalços, acabou por refluir ao seu leito original, perdendo o condão de dirigir o pensamento político da nação.
Antes que isso pudesse acontecer, porém, ditou ela as normas partidárias do país por muito tempo, o que teria levado Getúlio Vargas a confidenciar a Ademar de Sarros, quando tornou consciência do enorme poder secreto dessa confraria: "Não se pode governar o Brasil sem essa gente".