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História E TRADIÇÔES
Aqui historiamos, como num panorama, a trajetória de nossa Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito da USP, desde sua fundação em 1931.
  • Tradições
  • 11. Pendura!
  • Antonio Silvio Curiati
    Turma 1985

              Entrei no curso de graduação da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP) em 1981. Como não poderia deixar de ser, no dia 11 de agosto daquele ano aderi à centenária tradição do pendura.

              Em 11 de agosto de 1827 ocorreu a fundação dos cursos jurídicos no Brasil. Não se sabe exatamente a partir de quando, mas em algum momento os acadêmicos começaram a comemorar a data em restaurantes onde eram habitués, e na hora de pagar a conta exercitavam seus pendores oratórios, agradecendo à direção da casa em alto e bom som pelo convite na verdade inexistente, com o que granjeavam a simpatia e o aplauso dos demais freqüentadores.

              Vamos recapitular em que contexto surgiu tudo isso: tratava-se ainda de uma São Paulo pequena, em que todos se conheciam. Havia apenas uma faculdade de Direito na cidade, e somente duas no país, com poucos alunos; é claro que os estudantes detinham muito prestígio. E eles efetivamente freqüentavam por todo o ano o restaurante eleito, já eram da casa, não estavam ali somente para essa ocasião. Em condições tais, eram acolhidos com alegria e a conta pendurada, até porque era uma forma de a direção exibir sua generosidade perante os demais fregueses, em um tímido arremedo do que viria a ser conhecido no futuro como marketing institucional.

              Esse que descrevi é o hoje chamado pendura tradicional, que se manteve quase inalterado. Com o tempo e a mudança das circunstâncias, a criatividade estudantil agregou mais duas modalidades ao pendura: o selvagem, em que o estudante come e sai correndo, e o diplomático, em que o evento é marcado com antecedência, respeitadas as condições oferecidas pelo restaurante. Em qualquer das três formas sempre se paga o valor da gorjeta e se apresenta o ofício de agradecimento do Centro Acadêmico XI de Agosto.

              Bem, o chavão é batido, mas o primeiro pendura a gente nunca esquece! Então, naquele 11 de agosto de 1981, juntei-me a dois colegas e, muito bem vestidos, fomos jantar no saudoso Maria Fulô, na avenida Rebouças, especializado em comida baiana. Fazia muito frio e a casa estava vazia. Servimo-nos da excelente comida no buffet, inclusive de sobremesa, bebemos água e refrigerantes, e pedimos a conta sentindo um certo frisson. Colocamos a gorjeta junto do ofício e entregamos ao garçom, dizendo tratar-se de um pendura. Praticamente não havia público para o discurso de agradecimento. Em poucos minutos estava ali o gerente, e começamos a argumentar, até que sem muita dificuldade ele cedeu, talvez porque não consumíramos nenhum prato a la carte ou bebidas alcoólicas. Despedimo-nos e ele nos deixou um agouro, sabendo muito bem o que dizia:

              - Só espero que a comida não lhes faça mal...

              No dia seguinte, já estávamos alegremente compartilhando a história da nossa façanha na faculdade. Perto da hora do almoço, um colega perguntou-me se não gostaria de substituí-lo em um diplomático para cinco pessoas no The London Tavern do Hilton Hotel. É claro que aceitei! Mal comecei a provar o antepasto, senti uma cólica fortíssima e saí apressado em busca de um banheiro, que para minha sorte estava bem limpo: o presságio da véspera se cumprira com uma boa diarréia. O que a princípio parecera o resultado de uma imprecação ruim nada mais era que o conhecimento dos previsíveis efeitos do azeite de dendê em organismos não habituados...

              Nos anos que se seguiram ia aos penduras cada vez mais desenvolto, mas eram sempre tradicionais ou diplomáticos, pois nunca apreciei o modus operandi do tipo selvagem. Em meio a tantos, houve alguns que recordo com bastante nitidez.

              No terceiro ano do curso, no início de agosto fui com dois colegas à rua Amauri para marcar alguns diplomáticos. Entramos no Entrecôte, um local agradabilíssimo, e acabamos por falar com o proprietário, que foi muito receptivo:

              - O que posso lhes oferecer é um convite para seis pessoas, com entrada, uma carne, vinho e sobremesa.

              Ele falava como se estivesse nos fazendo uma oferta indelicada, como se fosse pouco, aparentemente sem se dar conta de como já era difícil, àquela altura, conseguir marcar um pendura. Na data combinada ali estávamos os seis apreciando a comida excepcional. Para nossa surpresa, ele monitorou nossa mesa pessoalmente, cuidando para que tudo estivesse perfeito. Não bastasse isso, ainda vinha à mesa e nos dizia:

              - Vocês são acadêmicos. Eu sou um mero dono de restaurante. Eu nasci para servi-los!

              Ele definitivamente sabia como inflar um ego: voltamos diversas vezes e em pouco tempo amortizamos o seu investimento.

              Alguns dias depois, graças ao contato de alguém da turma com a família de José Víctor Oliva, conseguimos um diplomático para jantar no Gallery em quatro casais. Fomos em dois casais no DKW de um colega, envoltos em todo o ruído e fumaça que um motor de dois tempos é capaz de fazer. Para disfarçar o constrangimento por uma chegada tão indiscreta, enquanto descia do carro uma das colegas dizia em voz alta, a quem quisesse ouvir e com uma expressão de afetada irritação:

              - Ah, esses milionários excêntricos...

              Foi uma noite memorável: iniciou-se no bar e seguiu-se um jantar irrepreensível, com direito a dançar ao som de um impecável clone de Frank Sinatra.

              Ainda em agosto de 1983, por volta do dia onze, fui marcar um diplomático no Rodeio. Entreguei o ofício ao sempre solícito maitre Ramon Mosquera Lopez, que se desculpou diante da impossibilidade de aceitá-lo, pois a casa já havia recebido um número expressivo de pedidos. Mesmo assim ele disse:

              - Vamos fazer uma coisa: você me liga no dia do seu aniversário e vem almoçar aqui.

              Foi difícil explicar a ele que eu faria aniversário dali a alguns dias, mais precisamente em 22 de agosto, quando os alunos da PUC estão no auge dos seus penduras! Mas ele cumpriu a palavra, como é natural a pessoas íntegras, e almocei no Rodeio.

              Em outra ocasião fomos em dois casais a um dos restaurantes do Piero para um pendura tradicional. Como ele abria tantas casas, e sempre com sucesso, agora não me recordo o nome ou a localização exata. Comemos e bebemos muito bem - sem abusar, como sempre - e na hora da conta apresentamos o ofício e a gorjeta. Vejo como se fosse hoje a calorosa acolhida do Piero: expressões faciais e gesticulação simulando desespero, como se não agüentasse mais receber outro pendura... Pois ele ainda veio à nossa mesa para agradecer por termos escolhido o seu restaurante para o nosso pendura! Eis aí alguém que consegue pensar em longo prazo, um verdadeiro empresário e não um simples comerciante, alguém que sabe transformar fregueses em clientes. Já perdi a conta das vezes em que voltei a uma de suas casas!

              Lembro-me também de penduras no Au Liban, Bongiovanni, Brasilton Dinho´s, La Tambouille, Massimo, Nelore, Othon, Ouro Velho e Piroska. Em todos fomos muito bem recebidos.

              No entanto, nem tudo eram flores. Muitas vezes em que fui conversar com gerentes para marcar um diplomático, fui solicitado a aguardá-los na cozinha. E cheguei a ver cada coisa! Nem sempre a essência correspondia à aparência... Melhor se não tivesse visto. Afinal, o que os olhos não vêem...

              Entendo perfeitamente a aflição que enfrentam hoje os donos de restaurante, quase duas décadas depois, quando se aproxima o mês de agosto. Senão, vejamos: a tradição, que a princípio se restringia à Faculdade do Largo de São Francisco, foi sendo adotada pelas outras faculdades de Direito. Ao mesmo tempo, essas começaram a proliferar mais que chuchu na serra, exponencialmente.

              Apenas como exemplo, em 1986 o número de inscrição definitiva na OAB-SP girava em torno de 85.000. Em 2003 já passava de 200.000! Considerando que nem todos os bacharéis prestam exame na OAB e que entre os que prestam o índice de aprovação deve estar em torno de trinta por cento, pode-se ter uma idéia do astronômico contingente de estudantes de Direito a caçar restaurantes para o pendura.

              Também houve nesses quase vinte anos uma impiedosa e brutal compressão do poder aquisitivo geral, reduzindo drasticamente as margens de lucro em todo tipo de negócios. Exceto, é claro, as margens de nosso sócio compulsório, o governo, que nunca deixam de crescer. Aliás, seus recordes de arrecadação só perdem para os de omissão...

              Por fim, a postura dos estudantes em relação à tradição foi-se dissociando de qualquer parâmetro e o pendura perdeu o glamour. Neste ponto preciso fazer um mea culpa, pois muito do que menciono a seguir já se praticava em minha época.

              O pendura deveria restringir-se ao dia 11 de agosto; hoje já se prolonga por praticamente todo o mês. O espírito da tradição nunca visou lesar o restaurante, mas confraternizar e usufruir da hospitalidade de uma casa da qual se é cliente habitual; hoje se procura para o pendura exatamente os restaurantes que não se freqüenta em condições normais. Na hora de fazer o pedido, a moderação é esquecida e pede-se o que há de mais caro, e não o que se comeria espontaneamente; afinal, gastar o dinheiro dos outros é uma delícia...

              Falando em gastar o dinheiro alheio, o pendura tradicional mais ousado de que tive conhecimento enquanto freqüentei a faculdade aconteceu no restaurante Cousine du Soleil do hotel Maksoud Plaza, por obra de alguns formandos da turma de 1983, tendo sido noticiado em horário nobre e em cadeia nacional. Eles simplesmente marcaram uma festa de casamento para o dia 11 de agosto! E a noiva, o noivo, os padrinhos et al eram todos acadêmicos!

              Conforme reportou-me a "noiva", ainda recentemente, houve lances ousados de ambas as partes. A uma certa altura, o maitre desconfiou e interpelou o "noivo", que por estar retornando há pouco do exterior portava muitos dólares na carteira e os exibiu, alegando trazer numerário para pagamento à vista, pois se passara pelo filho de um rico fazendeiro do Mato-Grosso. Depois que o pendura já havia sido declarado, ao final de uma lauta refeição regada a bem escolhidos vinhos da safra de 1962 e de custo atualizado equivalente ao de um Passat alemão, o maitre foi prolongando a discussão até que todos os demais clientes saíssem, e os garçons fecharam as portas. Quando os estudantes perceberam, estavam trancados. A "brincadeira" só não terminou na polícia devido à presença de espírito de um dos acadêmicos, que alegando ir ao banheiro ligou de um telefone público nas dependências do próprio restaurante (nessa época ainda não havia no Brasil o telefone celular) para a imprensa e para a portaria do hotel, então fazendo-se passar pelo delegado do 4º DP e intimando o maitre a soltar os estudantes imediatamente, sob pena de configurar-se cárcere privado, e a comparecer ao distrito para registrar a ocorrência.

    Esses foram longe...

    São Paulo, em abril de 2004.

    Antonio Silvio Curiati