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História E TRADIÇÔES
Aqui historiamos, como num panorama, a trajetória de nossa Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito da USP, desde sua fundação em 1931.
  • Tradições
  • 01. A Origem do Pique-Pique
  • Foi assim que nasceu o "pique-pique", em São Paulo, entre estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco:
    Guilherme de Almeida, o príncipe dos poetas brasileiros, dedicou ao episódio uma de suas deliciosas crônicas (Ontem - Hoje - Amanhã) publicada no Diário de S. Paulo, edição de 12 de setembro de 1952, exatamente sob o título "O pique-pique".
    Ei-la:
    "Conversa entre amigos. Faz pouco tempo. Na Rádio Tupi, durante o cafezinho, à margem do programa ‘Repto aos Enciclopédicos’. Fugas do pensamento, Marcha-à-ré no Tempo. Estudantadas. A velha Faculdade... E alguém:
    - É verdade... Por quem, e quando, teria sido inventado o popularíssimo ‘Pique-pique’: a já tradicional saudação dos estudantes?. Garanto que com essa pergunta eu abiscoitaria os 250 cruzeiros!
    "Ora, estava na roda o meu amigo Ubirajara Martins. Tomou um arzinho entendido, sorriu a prometeu-me um fiel depoimento a respeito. Prometeu e cumpriu. E a mim, agora, a agradável tarefa de resumir o pitoresco e fidedigno histórico.
    "1923. A turma que iria colar grau em 1927 (a do Primeiro Cente-nário da Faculdade) cultuava a boa boemia. Três estudantes - o Ubi-rajara, o Aru Medeiros e o Mário Ribeiro da Silva - fundaram uma alegre sociedade que se chamou "Pudim". Com bom fermento, o "Pudim" cresceu: desbravou o Interior com uma "Bandeira Acadêmica", composta de um team de futebol, um jazz e um grupo teatral: somente estudantes, e não apenas de Direito, mas já também de Medicina, da Politécnica e do Mackenzie.
    "Ora, essa turma precisava de um grito-de-guerra. Não lhe bastava o corriqueiro ‘Ra-ra-tchim-bum!’ Sentia necessidade de coisa mais carac-terística... Ora, na sua trindade fundadora, havia, primeiro, o apelido de Ubirajara: ‘pique-pique’ (por causa dos seus bigodes feitos de pontas agressivas como ‘picos’); depois, a expressão ‘inexpressiva’ do Mário, que, a qualquer propósito, cortava a perlenga do interlocutor com um inoportuno e incompreensível: 'Meia hora'...
    "Ora, certa noite, na ‘Pérola do Douro’ - um bar lusitano da Avenida São João, lá no Paissandu - quando ia alta a noite, e alto o nível alcoólico, a cada trago novo Mário brindava Ubirajara, dizendo ‘Pique-pique, pique-pique, pique-pique!’ E a Ubirajara a vez de replicar: ‘Meia hora, meia hora’. Daí, para emendar com o ‘Ra-ra-tchim-bum!’ foi um relâmpago. Estava criado o hino´’ do ‘Pudim’ e da ‘Bandeira’: o grito de guerra de toda a estudantada de hoje.
    "Quando foi entoado pela primeira vez? No dia seguinte àquela noite de farra, durante a visita do Marajá de Kapurtala à Faculdade: assim saudado, o príncipe hindu manifestou vivo interesse pela harmonia e sugestiva língua falada no Brasil"..."

    Apud Rosas no Inverno - memórias, Lauro Malheiros, pág. 173